quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Tem! ... mas acabou

 

Tem! ... mas acabou

                            Paulo do Eirado

 

A sacola de Maroca

É toda em tom sobre tom

Nem meio quilo nela vai

Mas combina com o batom

Pouca feira e muita pose

Sai na self, está no close

Parece uma Louis Vuitton

 

Com Severo é diferente

Calado e escabreado

Faz compra pra todo o mês

Com carrego enfileirado

O benquisto cidadão

Com seu terno de algodão

Tem bom dia de todo lado

 

A feira tem dessas coisas

Uns vendendo uns comprando

Todo mundo se conhece

Pois vivem negociando

A mesma cara batida

A mesma língua cumprida

Que arremeda pechinchando

 

Logo na primeira hora

Descarrega a mercedinha

Tudo vem nos engradados

Sem nenhuma amassadinha

Na barraca do feirante

Ou balaio dum ambulante

Fruta tem que ser fresquinha

Quem quiser pagar barato

Tem que se ligar no horário

Produto sofre no sol

O calor é temerário

O tempo se vai passando

E o preço desidratando

Liquidar é necessário

 

Esta é a famosa xepa

Que por muitos aguardada

A feira quer para todos

A cesta tão esperada

Onde há necessidade

Que se faça em equidade

Com o alimento de cada

 

Como o milagre dos peixes

Toda semana tem sete

Começa segunda-feira

E o calendário repete

É terça, é quarta, é quinta

Sexta carrega na tinta

Sextou! E postou na net

 

Só na língua portuguesa

Dia útil se chama feira

De sabedoria secular

Da segunda a sexta-feira

quando alguém quer trabalhar

na feira livre tem lugar

Pra iniciar uma carreira


 

Na grande banca de João

Não falta é variedade

Um balaio de dentaduras

Óculos pra realidade

Grife da vidente Josa

Que lê a mão da curiosa

Que quer saber a verdade

 

A sacoleira Valdete

Traz novidade esgotada

Diretamente da China

Chou da Chucha na parada

Da inteligência artificial

Com a pinta de original

Em DVD pra criançada

 

Vem chegando um coroné

Querendo comprar feijão

De Mariano já zerado

- Não tem nem um quilo não?

Vixe! aí o bicho pegou

Saída: - Tem! ...mas acabou

Convencendo o valentão

 

Quem viu de tudo na vida

Experiente qual Nicanor

Bate o olho se arrepiando

Farejando mau pagador

Caneta que a tinta apaga

Conversa como quem paga

Dum suspeito atravessador


 

O passo prossegue então

Admirando a fartura

Cada banca tem um jeito

Do dono é caricatura

Sortimento chama mix

Pagamento faz no pix

E fiado também fatura

 

Mas fiado só no cartão

Aqui tem a maquininha

O dinheiro é digital

Troco só pra vovozinha

Barraca boa é no crédito

Mas também aceito débito

Pro freguês comprar na minha

 

É do giro do transeunte

Que se gira o capital

Bem pequeno é verdade

Será por pessoa um real?

Debatem os estudiosos

Com os felinos zelosos

Lá da Receita Federal

 

Se da feira sobrevivo

Melhor optar pelo MEI

Previdência passo a ter

Como está dito na Lei

Trabalhar é meu destino

Não quero ser clandestino

Minha segurança busquei


 

Sendo a noite uma criança

Que dizer da madrugada

Por certo virou um adulto

Na feira em luta pesada

Traz no carrinho de mão

Carrega no caminhão

Segue escuro na jornada

 

Do sol ainda nem se sabe

Juvenal já está no local

Empreendedor de sonhos

Resiliente como tal

Vive da própria saúde

Da fé se fez atitude

Praticando o “velho normal”

 

Varejão, shopping, ceasa

Também ameaçam a feira

Já não bastasse a violência

Vem chuva e destrói a leira

Menos mal faz a estiagem

Miséria pouca é bobagem

Para os sem eira nem beira

 

Feira livre é um espelho

Que alma humana revela

Tem todo tipo de gesto

Trama assim só na novela

Uns dignos de confiança

Uns com dedo na balança

A vida repete a tela?


 

A feira tem o seu lugar

Em cada dia da semana

Algumas entre as melhores

Pensou na Copacabana?

Saudosa Água de Meninos

Dos recantos nordestinos

Viva a Feira de Santana!

 

Na feira chamada Brasil

Um multimodal roteiro

Caminhões vem de São Paulo

Vapor barato em Careiro

Jipão toiota na Sulanca

Petrolina de carranca

E a Bahia com o saveiro

 

Feiras de todo tamanho

Satisfazem a freguesia

Igual mesmo é o feirante

Diadiando nosso dia a dia

Com olhos sempre brilhantes

Pelas hortas verdejantes

E que ainda agora colhia

 

A barraca mais sortida

É que faz a moça vibrar

Fazendo maior pedido

Que na música de Elomar

A feira inspira o poeta

Como uma visão secreta

Que se insurge de aguardar


 

Feira livre tem repente

Cordel, triangulo e paixão

Contador de causo mau

E também de causo “bão”

É palco da própria vida

Lágrima de despedida

E pulsar de coração

 

O povo segue mudando

Ao chegar novos costumes

Nem passarinho na gaiola

Nem veneno nos legumes

Ninguém mais aceita isso

Hoje é outro compromisso

Tem defeso pros cardumes

 

As feiras só serão livres

No ambiente humanizado

Trabalho sendo envolvente

Muito bem remunerado

Novo formato do social

Surgirá como bem geral

Em um dia tão festejado

 

O bastidor duma feira

É a família agricultora

No pó da terra interior

A mão polinizadora

Encena com a geografia

Enreda a psicologia

Protagonista e autora


 

A cultura é importante

Traz vivência e Liberdade

Quando as leis nos civilizam

Pra todos com Igualdade

Há quem seja mais pra frente

Por conta d’outra vertente

Quem produz: Fraternidade

 

Até parece mentira

Pois mal a feira começou

Um freguês chega do céu

Num ovni e me perguntou

- Tem jenipapo marciano?

Respondo igual Mariano

- Seo E.T. Tem! ... mas acabou

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